Santo Agostinho escreve
sobre tédio e medo.
Quero estar ali,
chorar com ele.
Como pode o que sou
esgotar-se
no fino limite de um corpo?
John Locke morreu
enquanto uma jovem aluna casada,
numa paixão mútua não consumada,
lhe lia os salmos.
Assim, pairando na imaculada magia
da palavra dita sem toque,
se extinguiu o pai do empirismo.
Disse Descartes que o bom senso
está perfeitamente distribuído;
lamento que assim não seja
com o que me é interdito
pela ordem natural do mundo:
assobiar
fazer uma pedra ressaltar na água
soprar balões de pastilha elástica.
a gaveta perra
resiste à abertura
insiste na lentidão
a pequena oficina de bicicletas
mudou de dono.
é diferente o bigode
diversa a estatura
e, diria até,
divergente o estilo.
nada que disfarce,
contudo,
os mistérios que permanecem:
a roda
a liberdade de pedalar
e o que permanece no que muda.
insistir na conservação
perante o inexorável fluxo
que degrada a matéria -
eis o gesto convicto
da filosofia do taparuere.
hay que vivir combatiéndose
enquanto sou atendido,
entra na barbearia um pobre coitado;
cabisbaixo e desistente,
perde-se em queixumes.
ao sair, trocando de lugar,
dirijo-lhe um altivo boa tarde,
surpreendido pela minha própria frieza.
já na rua, compreendo:
por momentos não soube
se falava com outro
ou com aquela parte de mim
que, alheia, me coabita.
cura
na televisão, um homem
brinca com leões.
ganhou a sua confiança,
aprendeu os seus enigmas.
assim, já sem receio
perante a ferocidade,
convivo com os meus fantasmas.
constituem-me
a efervescência de Buenos Aires
e a melancolia de Lisboa.
filho de imigrantes,
nasci ali
de onde só parcialmente sou
e sou parcialmente
de acolá onde não nasci.
português que olha o Atlântico?
porteño com saudades do Tejo?
não sei, mas viajo.
sim, é verdade:
todo eu sou apenas metade;
mas, afinal de contas,
sou metade inteira.
no mesmo dia,
uma pesada nota fiscal
e o enterro de um familiar.
nothing is certain
except death and taxes
mas talvez,
entre o Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares
e o Cemitério Paroquial da Aldeia de Paio Pires,
haja ainda a liberdade da mão.
a mão, essas mãos,
as de Anaxágoras quando nos disse
que devido a elas pensamos.
a mão, essas tuas mãos
as minhas junto às tuas.
gesto-futuro
que combatendo o férreo destino
escreve
agarra
ama.
monoteísmo
chega o desconfinamento
e regressa o culto.
filas e filas aguardam
soberana bênção:
a posse de um item
obtido no shopping
numa tarde de domingo.
Quando - ou se - algum dia a filosofia acabar
e todos os conceitos ficarem finalmente isentos
de ambiguidade e especulação,
duas hipóteses haverá:
ou teremos alcançado o cume do progresso
ou alguém nos estará a enganar a todos.
Parece-me a segunda mais provável
e por isso encaro o filosofar
como ato de vigilância contra disfarces.
descobriu Einstein
que a gravidade distorce o tempo
e não há um agora universal.
por isso
morrerei em instante nenhum,
sob o ponto de vista das estrelas.
sento-me no mesmo jardim
de há dez anos.
mudou ele
mudei eu
e estou em paz,
Heraclito -
ficarias orgulhoso
e juntos mergulharíamos
nesta tarde citadina.
Às vezes, ao passar nos umbrais
enfio, distraído,
as maçanetas nas mangas.
Diria Freud, talvez
que assim preso concretizo
o limbo que sou:
terra de ninguém,
ambiguidade sem remédio,
inexpugnável outro.
aí
onde se cruzam
a pele
a morte
o instante
o
poema foge
ELEVAÇÃO
Sorriso
música
abraço:
os três se fundiam
nessa casa fora de casa
que era, em criança,
encontrar a Olga.
Corria na sua direção,
como se colocar os meus braços
à volta de quem assim tocava o piano
me concedesse um pouco de eternidade.
Os anos passaram,
fui a menos concertos, deixei de correr
mas o abraço, esse, permaneceu,
ensinando-me a cada momento que,
nesta finitude de ser,
há raras pessoas
que nos elevam para lá do tempo.
somos dois
no labirinto da tarde
e se experimentássemos a cintura
assistindo à morte das sereias?
os corpos eram início
todas as manhãs
tinham o nosso nome
e eu sabia o caminho para casa
somente guiado pelo teu gemido
nos rostos e nas cadeiras vagas
nos corpos caminhando lentos pelas ruas
nas placas vende-se arrenda-se for sale for rent
no asfalto despido nas carruagens do metro quase desertas
no silêncio em que outrora se sentava
a artista de rua
na espera pelo cliente que não vem não chega
nas portas fechadas nas arrumações feitas
nos armazéns cheios e nas montras vazias
na mudez que aguarda em cada esquina
no semblante carregado de uma cidade
que era festa:
em todos os lugares
se impõe o espectro de gente
descartada
suspensa
adiada
dessa gente a nossa gente
que pôs um volto já na vida
sem saber se é já
sem saber se é nunca.
abril de 2021
Às oito entram na escola,
na mochila livros e o amanhã;
no chão um joelho que se esfola
é presságio duma coragem sã.
O novo torna-se ancião,
é natural que tudo finde;
querem lá saber de tal reflexão,
quem manda na terra é o berlinde.
No pátio a bola é rainha, criança... (refrão)
meninas traçam a linha da trança;
esta gente é tua e minha - esperança!
Que o tempo está na ponta da lança.
Um quer ser futebolista,
a outra astronauta;
no fim somos todos fadistas:
a noss’ alma não nos falta.
Ó tu que brincas e saltas,
dá-me algo dessa magia,
traz-me essa nuvem tão alta
onde a vida é irmã do dia.