sábado, 3 de janeiro de 2026

Poem Dump de 2025





palavra nós:
resistência
contra
o esquecimento.



*



Porto


Em frente à Casa da Música
skaters fazem manobras
proclamando com saltos e rotações
que são múltiplos os modos da liberdade.



*



dia de eleições


Na rua lisboeta onde cresci
e jogava à bola com uns rufias
há agora um sítio cheio de estilo
que vende exuberantes cocktails.

Um funk anima a tarde
vindo sabe-se lá de que esplanada
e após exercer o meu direito ao voto
na escola da minha infância,
cumprimento a minha crush de puberdade
que continua loira e apetecível.

Na praceta lembro-me da minha mãe:
dos passeios sem fim pelo bairro
passando na frutaria, no talho, na padaria
conversando sobre ciência e matemática
partilhando perguntas e gargalhadas
que certamente esta estranha e bela mulher
aprofundaria no Céu caso este existisse.

Trago na mochila um livro de Ortega y Gasset;
"O Que é a Filosofia?", pergunta na capa.

Não sei
mas seja o que for
não nos cura do tempo.



*



se as pessoas têm tempo
conversam

e gente que sabe conversar
é gente perigosa



*



empreitada


Hotéis baratos em que fiz amor
na primeira década do século
são agora outros ou outra coisa;

o cinema onde tanto descobri
tornou-se banco de apelativo spread;

e a clínica onde nasci
há muito fechou portas.

Sinto-me mais velho na minha cidade
do que quando olho ao espelho e me desconheço.

Muda Lisboa
e mudo eu;
mas ao contrário dela
albergo menos remodelações
que demolições.



*



que dizer insondável
guarda o corpo?

eis a investigação que fazemos
num quarto dos arredores
enquanto lá fora o mundo
ignora os nossos anseios.



*



Saudades

do tempo em que a Pamela Anderson
era uma bomba
Lisboa era minha
e eu tinha menos mortos
na bagagem.

(mas, sobretudo,
da Pamela Anderson.)