palavra nós:
resistência
contra
o esquecimento.
*
Porto
Em frente à Casa da Música
skaters fazem manobras
proclamando com saltos e rotações
que são múltiplos os modos da liberdade.
*
dia de eleições
Na rua lisboeta onde cresci
e jogava à bola com uns rufias
há agora um sítio cheio de estilo
que vende exuberantes cocktails.
Um funk anima a tarde
vindo sabe-se lá de que esplanada
e após exercer o meu direito ao voto
na escola da minha infância,
cumprimento a minha crush de puberdade
que continua loira e apetecível.
Na praceta lembro-me da minha mãe:
dos passeios sem fim pelo bairro
passando na frutaria, no talho, na padaria
conversando sobre ciência e matemática
partilhando perguntas e gargalhadas
que certamente esta estranha e bela mulher
aprofundaria no Céu caso este existisse.
Trago na mochila um livro de Ortega y Gasset;
"O Que é a Filosofia?", pergunta na capa.
Não sei
mas seja o que for
não nos cura do tempo.
*
se as pessoas têm tempo
conversam
e gente que sabe conversar
é gente perigosa
*
empreitada
Hotéis baratos em que fiz amor
na primeira década do século
são agora outros ou outra coisa;
o cinema onde tanto descobri
tornou-se banco de apelativo spread;
e a clínica onde nasci
há muito fechou portas.
Sinto-me mais velho na minha cidade
do que quando olho ao espelho e me desconheço.
Muda Lisboa
e mudo eu;
mas ao contrário dela
albergo menos remodelações
que demolições.
*
que dizer insondável
guarda o corpo?
eis a investigação que fazemos
num quarto dos arredores
enquanto lá fora o mundo
ignora os nossos anseios.
*
Saudades
era uma bomba
Lisboa era minha
e eu tinha menos mortos
na bagagem.
(mas, sobretudo,
da Pamela Anderson.)