Disse Descartes que o bom senso
está perfeitamente distribuído;
lamento que assim não seja
com o que me é interdito
pela ordem natural do mundo:
assobiar
fazer uma pedra ressaltar na água
soprar balões de pastilha elástica.
Disse Descartes que o bom senso
está perfeitamente distribuído;
lamento que assim não seja
com o que me é interdito
pela ordem natural do mundo:
assobiar
fazer uma pedra ressaltar na água
soprar balões de pastilha elástica.
a gaveta perra
resiste à abertura
insiste na lentidão
a pequena oficina de bicicletas
mudou de dono.
é diferente o bigode
diversa a estatura
e, diria até,
divergente o estilo.
nada que disfarce,
contudo,
os mistérios que permanecem:
a roda
a liberdade de pedalar
e o que permanece no que muda.
insistir na conservação
perante o inexorável fluxo
que degrada a matéria -
eis o gesto convicto
da filosofia do taparuere.
hay que vivir combatiéndose
enquanto sou atendido,
entra na barbearia um pobre coitado;
cabisbaixo e desistente,
perde-se em queixumes.
ao sair, trocando de lugar,
dirijo-lhe um altivo boa tarde,
surpreendido pela minha própria frieza.
já na rua, compreendo:
por momentos não soube
se falava com outro
ou com aquela parte de mim
que, alheia, me coabita.
cura
na televisão, um homem
brinca com leões.
ganhou a sua confiança,
aprendeu os seus enigmas.
assim, já sem receio
perante a ferocidade,
convivo com os meus fantasmas.
constituem-me
a efervescência de Buenos Aires
e a melancolia de Lisboa.
filho de imigrantes,
nasci ali
de onde só parcialmente sou
e sou parcialmente
de acolá onde não nasci.
português que olha o Atlântico?
porteño com saudades do Tejo?
não sei, mas viajo.
sim, é verdade:
todo eu sou apenas metade;
mas, afinal de contas,
sou metade inteira.
no mesmo dia,
uma pesada nota fiscal
e o enterro de um familiar.
nothing is certain
except death and taxes
mas talvez,
entre o Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares
e o Cemitério Paroquial da Aldeia de Paio Pires,
haja ainda a liberdade da mão.
a mão, essas mãos,
as de Anaxágoras quando nos disse
que devido a elas pensamos.
a mão, essas tuas mãos
as minhas junto às tuas.
gesto-futuro
que combatendo o férreo destino
escreve
agarra
ama.
monoteísmo
chega o desconfinamento
e regressa o culto.
filas e filas aguardam
soberana bênção:
a posse de um item
obtido no shopping
numa tarde de domingo.
Quando - ou se - algum dia a filosofia acabar
e todos os conceitos ficarem finalmente isentos
de ambiguidade e especulação,
duas hipóteses haverá:
ou teremos alcançado o cume do progresso
ou alguém nos estará a enganar a todos.
Parece-me a segunda mais provável
e por isso encaro o filosofar
como ato de vigilância contra disfarces.
descobriu Einstein
que a gravidade distorce o tempo
e não há um agora universal.
por isso
morrerei em instante nenhum,
sob o ponto de vista das estrelas.
sento-me no mesmo jardim
de há dez anos.
mudou ele
mudei eu
e estou em paz,
Heraclito -
ficarias orgulhoso
e juntos mergulharíamos
nesta tarde citadina.
Às vezes, ao passar nos umbrais
enfio, distraído,
as maçanetas nas mangas.
Diria Freud, talvez
que assim preso concretizo
o limbo que sou:
terra de ninguém,
ambiguidade sem remédio,
inexpugnável outro.
aí
onde se cruzam
a pele
a morte
o instante
o
poema foge
ELEVAÇÃO
Sorriso
música
abraço:
os três se fundiam
nessa casa fora de casa
que era, em criança,
encontrar a Olga.
Corria na sua direção,
como se colocar os meus braços
à volta de quem assim tocava o piano
me concedesse um pouco de eternidade.
Os anos passaram,
fui a menos concertos, deixei de correr
mas o abraço, esse, permaneceu,
ensinando-me a cada momento que,
nesta finitude de ser,
há raras pessoas
que nos elevam para lá do tempo.
somos dois
no labirinto da tarde
e se experimentássemos a cintura
assistindo à morte das sereias?
os corpos eram início
todas as manhãs
tinham o nosso nome
e eu sabia o caminho para casa
somente guiado pelo teu gemido
nos rostos e nas cadeiras vagas
nos corpos caminhando lentos pelas ruas
nas placas vende-se arrenda-se for sale for rent
no asfalto despido nas carruagens do metro quase desertas
no silêncio em que outrora se sentava
a artista de rua
na espera pelo cliente que não vem não chega
nas portas fechadas nas arrumações feitas
nos armazéns cheios e nas montras vazias
na mudez que aguarda em cada esquina
no semblante carregado de uma cidade
que era festa:
em todos os lugares
se impõe o espectro de gente
descartada
suspensa
adiada
dessa gente a nossa gente
que pôs um volto já na vida
sem saber se é já
sem saber se é nunca.
abril de 2021
Às oito entram na escola,
na mochila livros e o amanhã;
no chão um joelho que se esfola
é presságio duma coragem sã.
O novo torna-se ancião,
é natural que tudo finde;
querem lá saber de tal reflexão,
quem manda na terra é o berlinde.
No pátio a bola é rainha, criança... (refrão)
meninas traçam a linha da trança;
esta gente é tua e minha - esperança!
Que o tempo está na ponta da lança.
Um quer ser futebolista,
a outra astronauta;
no fim somos todos fadistas:
a noss’ alma não nos falta.
Ó tu que brincas e saltas,
dá-me algo dessa magia,
traz-me essa nuvem tão alta
onde a vida é irmã do dia.