sento-me no mesmo jardim
de há dez anos.
mudou ele
mudei eu
e estou em paz,
Heraclito -
ficarias orgulhoso
e juntos mergulharíamos
nesta tarde citadina.
sento-me no mesmo jardim
de há dez anos.
mudou ele
mudei eu
e estou em paz,
Heraclito -
ficarias orgulhoso
e juntos mergulharíamos
nesta tarde citadina.
Às vezes, ao passar nos umbrais
enfio, distraído,
as maçanetas nas mangas.
Diria Freud, talvez
que assim preso concretizo
o limbo que sou:
terra de ninguém,
ambiguidade sem remédio,
inexpugnável outro.
aí
onde se cruzam
a pele
a morte
o instante
o
poema foge
ELEVAÇÃO
Sorriso
música
abraço:
os três se fundiam
nessa casa fora de casa
que era, em criança,
encontrar a Olga.
Corria na sua direção,
como se colocar os meus braços
à volta de quem assim tocava o piano
me concedesse um pouco de eternidade.
Os anos passaram,
fui a menos concertos, deixei de correr
mas o abraço, esse, permaneceu,
ensinando-me a cada momento que,
nesta finitude de ser,
há raras pessoas
que nos elevam para lá do tempo.
somos dois
no labirinto da tarde
e se experimentássemos a cintura
assistindo à morte das sereias?
os corpos eram início
todas as manhãs
tinham o nosso nome
e eu sabia o caminho para casa
somente guiado pelo teu gemido
nos rostos e nas cadeiras vagas
nos corpos caminhando lentos pelas ruas
nas placas vende-se arrenda-se for sale for rent
no asfalto despido nas carruagens do metro quase desertas
no silêncio em que outrora se sentava
a artista de rua
na espera pelo cliente que não vem não chega
nas portas fechadas nas arrumações feitas
nos armazéns cheios e nas montras vazias
na mudez que aguarda em cada esquina
no semblante carregado de uma cidade
que era festa:
em todos os lugares
se impõe o espectro de gente
descartada
suspensa
adiada
dessa gente a nossa gente
que pôs um volto já na vida
sem saber se é já
sem saber se é nunca.
abril de 2021
Às oito entram na escola,
na mochila livros e o amanhã;
no chão um joelho que se esfola
é presságio duma coragem sã.
O novo torna-se ancião,
é natural que tudo finde;
querem lá saber de tal reflexão,
quem manda na terra é o berlinde.
No pátio a bola é rainha, criança... (refrão)
meninas traçam a linha da trança;
esta gente é tua e minha - esperança!
Que o tempo está na ponta da lança.
Um quer ser futebolista,
a outra astronauta;
no fim somos todos fadistas:
a noss’ alma não nos falta.
Ó tu que brincas e saltas,
dá-me algo dessa magia,
traz-me essa nuvem tão alta
onde a vida é irmã do dia.