quinta-feira, 20 de abril de 2023

lembrança de um pré-socrático num espaço verde urbano

 

sento-me no mesmo jardim
de há dez anos.

mudou ele
mudei eu

e estou em paz,
Heraclito - 

ficarias orgulhoso
e juntos mergulharíamos
nesta tarde citadina.







sábado, 12 de novembro de 2022

encarnando Freud






Às vezes, ao passar nos umbrais
enfio, distraído,
as maçanetas nas mangas.

Diria Freud, talvez
que assim preso concretizo
o limbo que sou:

terra de ninguém,
ambiguidade sem remédio,
inexpugnável outro.






quarta-feira, 7 de setembro de 2022

a propósito do não-coisas, do senhor Han







ecrãs tácteis seguem-nos
pessoas
notícias
sons
cores
o império 
na ponta 
dos dedos

talvez no meio desta azáfama
sem que ninguém se apercebesse
alguém tenha já resolvido
o problema filosófico do livre-arbítrio





quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

sobre a fuga

 




aí onde se cruzam

a pele
a morte
o instante

o poema foge










quinta-feira, 5 de agosto de 2021

homenagem a Olga Prats





ELEVAÇÃO


Sorriso

música

abraço:


os três se fundiam

nessa casa fora de casa

que era, em criança,

encontrar a Olga.


Corria na sua direção,

como se colocar os meus braços

à volta de quem assim tocava o piano

me concedesse um pouco de eternidade.


Os anos passaram,

fui a menos concertos, deixei de correr

mas o abraço, esse, permaneceu,

ensinando-me a cada momento que,

nesta finitude de ser,

há raras pessoas

que nos elevam para lá do tempo.






terça-feira, 18 de maio de 2021

interpelação

 


somos dois
no labirinto da tarde

e se experimentássemos a cintura
assistindo à morte das sereias?




sexta-feira, 7 de maio de 2021

(des)arrumações de papéis

 



os corpos eram início

 

todas as manhãs

tinham o nosso nome

 

e eu sabia o caminho para casa

somente guiado pelo teu gemido





sábado, 1 de maio de 2021

Layoff ou a esperança de desconfinar

 

nos rostos e nas cadeiras vagas
nos corpos caminhando lentos pelas ruas
nas placas vende-se arrenda-se for sale for rent
no asfalto despido nas carruagens do metro quase desertas 
no silêncio em que outrora se sentava
a artista de rua

na espera pelo cliente que não vem não chega
nas portas fechadas nas arrumações feitas
nos armazéns cheios e nas montras vazias
na mudez que aguarda em cada esquina
no semblante carregado de uma cidade
que era festa:

em todos os lugares
se impõe o espectro de gente
    descartada
        suspensa
            adiada

dessa gente a nossa gente
que pôs um volto já na vida

    sem saber se é já
    sem saber se é nunca.

abril de 2021

sábado, 2 de janeiro de 2021

homenagem a Carlos do Carmo (do baú - 2012)




Às oito entram na escola,

na mochila livros e o amanhã;

no chão um joelho que se esfola

é presságio duma coragem sã.

 

O novo torna-se ancião,

é natural que tudo finde;

querem lá saber de tal reflexão,

quem manda na terra é o berlinde.

 

No pátio a bola é rainha, criança...                                         (refrão)

meninas traçam a linha da trança;

esta gente é tua e minha  - esperança!

Que o tempo está na ponta da lança.         

 

Um quer ser futebolista,

a outra astronauta;

no fim somos todos fadistas:

a noss’ alma não nos falta.

 

Ó tu que brincas e saltas,

dá-me algo dessa magia,

traz-me essa nuvem tão alta

onde a vida é irmã do dia.

domingo, 6 de dezembro de 2020

delivery ou a sociedade das plataformas





extensão da mota
acessório da aplicação
prolongamento da mala térmica
eis tudo
o que o gajo da glovo é

já no cimo da escadaria recebe
um boa noite e a gorjeta

mas não ainda e quiçá nunca
a dignidade que só germina
aí onde a exploração cessa

extensão
acessório
prolongamento
eis tudo
o que o gajo da glovo é





segunda-feira, 22 de junho de 2020

entre burocracias educacionais







a vida é só a palavra do momento
procuro vestígios
de outros mundos outras letras






sábado, 13 de junho de 2020

recordando o verão passado, com Wittgenstein








A senhora diz ao colega
“pão e azeitonas para três”;
eis o início
das Investigações Filosóficas do Wittgenstein.

Pedi o bitoque sem batatas
mas, no meio do arroz, veio uma
frita
isolada
desengonçada,
recordando-me quem sou.












quarta-feira, 3 de junho de 2020

decorre o período de entrega da declaração de IRS








Dois cinco nove
cinco seis um
um três quatro.

Quando eu morrer
também o meu número fiscal
cessará

recebido de braços abertos
pelo conjunto crescente
das sequências esquecidas.






segunda-feira, 18 de maio de 2020

desconfinamento








os miúdos correm na rua
jogam à bola com o céu
fronteira inacabável








quarta-feira, 13 de maio de 2020

astronomia








Detetaram neutrinos,
fugidias partículas subatómicas,
vindos de uma galáxia a dois mil milhões de anos-luz.

No tempo em que vivia,
a minha mãe gostava muito de ciência e explicava:
eis o que a luz percorre num ano.

Não acredito em deus,
mas os neutrinos chegam de muito longe
e neles oiço a voz desta mulher que indaga.







segunda-feira, 4 de maio de 2020

mistérios naturais no início da semana (ou relembrando Sines)







a brecha da Arrábida é uma rocha
com pedras coloridas dentro

mistério que me sussurra todos os outros






domingo, 16 de fevereiro de 2020

do eterno retorno das segundas-feiras







“Onde estou?”, pergunto à funcionária da escola,
esperando um número de sala e a chave,
mas desejando intimamente
que de repente ela esclareça todos os mistérios,
o porquê de uma vida humana sob as estrelas,
a razão dos séculos findos e por vir.

“É na dezanove, professor”.
E a vida continua, numa manhã de segunda-feira.






domingo, 29 de dezembro de 2019

memórias de La Paz







Na minha mão sobre a mesa
pões a tua. São ainda jovens,
estas mãos que amam.

Esqueçamos que um dia 
desaparecerão e, por ora,
entrelacemos os dedos.

Quando menos é esperada,
a eternidade visita-nos
à volta de um café acabado de servir.





sábado, 9 de novembro de 2019

fortuito







Enquanto almoço na esplanada,
ao longe um rapaz acena e aproxima-se,
antes de constrangido voltar para trás,
ciente do seu lapso – não o conheço.

Quem será esse outro
com quem fui confundido?
Quem és, desconhecido semelhante,
recordando-me tudo o que não sou?

Entre o hambúrguer e o café,
perdi a singularidade.








sexta-feira, 20 de setembro de 2019

david, da vida, duvida, dúvida







Tiro a senha, espero
pelo registo criminal;
vem limpo, como sempre.

E esta angústia, as mágoas
que criei, o que quis ser
e não sou, em que parte de mim
registo estes pequenos crimes?




*




Quando entro no quarto devagar
e enquanto dormes tiro a roupa
e fico nu, em pé, quieto,
e tudo está escuro
e quase nenhum barulho vem lá de fora,
quem é este homem que em vão tenta
observar-te,
quem sou eu quando assim
me ignoro?





quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Múltiplos eventos diários de índole diversa








Acaba a final da Taça,
buzinas invadem as ruas.

A minha alegria é vã:
nada há de melhor nos verdes
que nos azuis, exceto
eu ser dos verdes.

Festejo, finto a insignificância
e remato a angústia que,
como bom guarda-redes,
agarro sempre de volta.



*



Da beleza, não conheço a essência,
mas a circunstância: deitada, de manhã,
olhas-me nos olhos e adormeces.



*


O casal de idosos
lê um jornal após outro
na mesa de uma esplanada.

Calados, partilham somente 
quietude e notícias.

A sua presença acusa:
a minha correria afugenta
esse encontro em que o tempo
é só um virar de página.





terça-feira, 9 de abril de 2019

abril, águas mil







Se digo “provém do céu,
faz uma airosa e curta viagem
antes de se desfazer para sempre no chão”,
falo das gotas de chuva
ou da vida de mulheres e homens?






domingo, 24 de março de 2019

declaração do primeiro trimestre












“Chegou o meu amor”,
dizes carinhosa quando abro a porta de casa,
cansado com uma carga invisível:
frustrações, insuficiências,
entranhada pequenez
que me controla e afoga.

“Chegou o meu amor”, dizes;
e, por momentos, caio nessa ilusão
de que o que acaba de chegar,
                invadir cada recanto da casa,
                               recobrir as superfícies das coisas,
                                               infiltrar-se nas brechas do soalho,
é, tão somente, o teu amor.



*



No centro do escritório, colocada
logo após a mudança de casa,
uma mesa de campismo:
eis onde escrevo.

Solução inicialmente temporária,
tornou-se permanente e,
agora, afloro o porquê:

                dar corpo às palavras
                é estar sempre pronto para partir.




*




O meu nome completo
tem só duas palavras;

mas no estranho apelido –
que vem do longínquo avô russo,
passa pelo pai argentino
e chega até mim em Lisboa –
há mochilas às costas,
lágrimas em partidas,
muitas milhas percorridas
na procura de um lugar para Ser.


*


Estive sem óculos dois dias,
esquecidos em casa de um amigo.
Tudo ficou mais turvo: linhas frágeis,
cores insípidas e, no fundo do olhar,
um permanente cansaço.

O amigo devolveu-me os óculos.
Linhas, cores, cansaço
continuaram iguais –
não há lentes que valham
quando é da alma a miopia.



*


As ovelhas caminham lentamente,
param, enfiam o rosto na terra,
comem  e voltam a caminhar.

Fazem-no em conjunto,
mas cada uma à sua maneira,
irrepetível.

Assim, na curta planície vedada
que observo desde a piscina do hotel rural,
se joga a perpétua tensão
entre a Singularidade e o Mundo.



*



Na mesa de cabeceira,
um livro sobre o cosmos,
outro sobre a psique.

Lado a lado,
quase parecem discutir
o que é mais fascinante:
se a infinitude externa do Universo,
se a infinitude interna da Alma.




segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

poemas de Buenos Aires







As palavras-bússola
entretecem perenes
o enigma de existir.

Quando as oiço
toda a alma é umbral.






*





Eis uma fé agnóstica:
quando me abraças
rezo ao Deus em que não creio
e peço inaudível
que a vida caiba toda no teu peito.






*





Entro na carruagem do metro
e, do outro lado do vidro,
momentâneos no seu afastamento,
o músico de rua e o vendedor ambulante
sentam-se agora no mesmo banco
da estação vazia.

Descansam,
não mais tocando
nem anunciando.

Partilhada em silêncio
parece divina a solidão.




*




Caminho viajo
procuro pergunto
oiço comparo.


É inevitável a sentença
de eco milenar:
sou estrangeiro
o rosto do Outro é minha pátria.




*




Em Buenos Aires o café é servido
com uma bolachinha e um copo de água.

Perante o insanável fervor
há que adoçar e diluir.




*




Judeu sem Deus,
faço da viagem
a minha permanência.

Resisto à intempérie – 
recolho a pouco e pouco
a voz ténue dos vários que sou.





quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Querido Marco Aurélio,







falas de um génio interior
que eterno nos sobrevive;
quem me dera conversar contigo
no intervalo das tuas batalhas.

Enquanto escrevo
neste restaurante de bairro
um americano extra large faz
um discurso apologético
sobre um hipotético
mushroom burguer:

teremos sempre,
estimado imperador,
conquistas e utopia
utopia e conquistas.










perspetivas da cidade







Passeio pela cidade
uma tarde por aqui
outra por acolá
vagueando.

Nas duas passo porém
pela mesma capela mortuária.
Diferentes protagonistas,
espetáculo igual:

cá fora
uns choram e outros conversam

lá dentro
os inexistentes relembram
que só os sonhos são imortais.



*



No prédio em frente ao meu
agita-se a trepadeira.

Com frágeis raízes
resiste à ferocidade do vento.

Lados da rua,
jogo de espelhos –
a natureza ascende
observada
por uma alma que sucumbe.






funcionalidade vs. caos







Organizo a escrita:
crio ficheiros
altero versos
consulto cadernos.

Planeio
ideias
textos
livros.

Uma voz subtil
evidencia
inexorável
o tumulto da mente.








inesperado Kant







Oiço na tasca:
“agora está no Kant,
mais perto do nada.”

A voz continua. Afinal foi:
“agora está no campo,
mais perto do nada.”

Clareza
     beleza: 
           inimigas.






welcome, idade adulta







Levávamos o sol no peito
explodindo em juventude
e na pele
meu amor
um murmúrio de flores e danças.

Lembras-te
desse tempo sem passado
em que todos os dias
eram amanhã?

As primeiras rugas
dois ou três cabelos brancos
e rotinas das nove às cinco
gritam agora um silêncio crescente;

denunciam cansaço,
a nossa nova habitação.







passeios com alguma dose de aleatoriedade






às vezes ao passar enfio
as mangas nas maçanetas
ou melhor
as maçanetas nas mangas

não é surrealismo
é distração

diria Freud talvez
que assim preso concretizo
o limbo que sou

terra de ninguém
ambiguidade sem remédio
inexpugnável outro



*



compro um regador de latão
recuso o saco
levo-o na mão

olham-me estranhamente
eis sem o saco
um homem transparente




*




agora há na cidade um sistema
de bicicletas partilhadas

usamos arrumamos respeitamos
e elas ali continuam disponíveis
viagem após viagem
aguardando nova vida

pena assim não ser
com as almas




*




homem sem utopias
cínico
homem de uma só utopia
totalitário

mais vale aguardar

lutar com pequena grandeza
e nos intervalos
quando a desistência ameaça
obter ânimo no sushi all you can eat

olhar o mundo com a alma
porque às vezes um verso
esconde-se vadio
entre os sacos do supermercado

perceber enfim
é divina a transitoriedade
e uma dádiva o poema
que em território inóspito sem hora marcada
enfrenta corajoso a angústia