quarta-feira, 7 de setembro de 2022

a propósito do não-coisas, do senhor Han







ecrãs tácteis seguem-nos
pessoas
notícias
sons
cores
o império 
na ponta 
dos dedos

talvez no meio desta azáfama
sem que ninguém se apercebesse
alguém tenha já resolvido
o problema filosófico do livre-arbítrio





quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

sobre a fuga

 




aí onde se cruzam

a pele
a morte
o instante

o poema foge










quinta-feira, 5 de agosto de 2021

homenagem a Olga Prats





ELEVAÇÃO


Sorriso

música

abraço:


os três se fundiam

nessa casa fora de casa

que era, em criança,

encontrar a Olga.


Corria na sua direção,

como se colocar os meus braços

à volta de quem assim tocava o piano

me concedesse um pouco de eternidade.


Os anos passaram,

fui a menos concertos, deixei de correr

mas o abraço, esse, permaneceu,

ensinando-me a cada momento que,

nesta finitude de ser,

há raras pessoas

que nos elevam para lá do tempo.






terça-feira, 18 de maio de 2021

interpelação

 


somos dois
no labirinto da tarde

e se experimentássemos a cintura
assistindo à morte das sereias?




sexta-feira, 7 de maio de 2021

(des)arrumações de papéis

 



os corpos eram início

 

todas as manhãs

tinham o nosso nome

 

e eu sabia o caminho para casa

somente guiado pelo teu gemido





sábado, 1 de maio de 2021

Layoff ou a esperança de desconfinar

 

nos rostos e nas cadeiras vagas
nos corpos caminhando lentos pelas ruas
nas placas vende-se arrenda-se for sale for rent
no asfalto despido nas carruagens do metro quase desertas 
no silêncio em que outrora se sentava
a artista de rua

na espera pelo cliente que não vem não chega
nas portas fechadas nas arrumações feitas
nos armazéns cheios e nas montras vazias
na mudez que aguarda em cada esquina
no semblante carregado de uma cidade
que era festa:

em todos os lugares
se impõe o espectro de gente
    descartada
        suspensa
            adiada

dessa gente a nossa gente
que pôs um volto já na vida

    sem saber se é já
    sem saber se é nunca.

abril de 2021

sábado, 2 de janeiro de 2021

homenagem a Carlos do Carmo (do baú - 2012)




Às oito entram na escola,

na mochila livros e o amanhã;

no chão um joelho que se esfola

é presságio duma coragem sã.

 

O novo torna-se ancião,

é natural que tudo finde;

querem lá saber de tal reflexão,

quem manda na terra é o berlinde.

 

No pátio a bola é rainha, criança...                                         (refrão)

meninas traçam a linha da trança;

esta gente é tua e minha  - esperança!

Que o tempo está na ponta da lança.         

 

Um quer ser futebolista,

a outra astronauta;

no fim somos todos fadistas:

a noss’ alma não nos falta.

 

Ó tu que brincas e saltas,

dá-me algo dessa magia,

traz-me essa nuvem tão alta

onde a vida é irmã do dia.

domingo, 6 de dezembro de 2020

delivery ou a sociedade das plataformas





extensão da mota
acessório da aplicação
prolongamento da mala térmica
eis tudo
o que o gajo da glovo é

já no cimo da escadaria recebe
um boa noite e a gorjeta

mas não ainda e quiçá nunca
a dignidade que só germina
aí onde a exploração cessa

extensão
acessório
prolongamento
eis tudo
o que o gajo da glovo é





segunda-feira, 22 de junho de 2020

entre burocracias educacionais







a vida é só a palavra do momento
procuro vestígios
de outros mundos outras letras






sábado, 13 de junho de 2020

recordando o verão passado, com Wittgenstein








A senhora diz ao colega
“pão e azeitonas para três”;
eis o início
das Investigações Filosóficas do Wittgenstein.

Pedi o bitoque sem batatas
mas, no meio do arroz, veio uma
frita
isolada
desengonçada,
recordando-me quem sou.












quarta-feira, 3 de junho de 2020

decorre o período de entrega da declaração de IRS








Dois cinco nove
cinco seis um
um três quatro.

Quando eu morrer
também o meu número fiscal
cessará

recebido de braços abertos
pelo conjunto crescente
das sequências esquecidas.






segunda-feira, 18 de maio de 2020

desconfinamento








os miúdos correm na rua
jogam à bola com o céu
fronteira inacabável








quarta-feira, 13 de maio de 2020

astronomia








Detetaram neutrinos,
fugidias partículas subatómicas,
vindos de uma galáxia a dois mil milhões de anos-luz.

No tempo em que vivia,
a minha mãe gostava muito de ciência e explicava:
eis o que a luz percorre num ano.

Não acredito em deus,
mas os neutrinos chegam de muito longe
e neles oiço a voz desta mulher que indaga.







segunda-feira, 4 de maio de 2020

mistérios naturais no início da semana (ou relembrando Sines)







a brecha da Arrábida é uma rocha
com pedras coloridas dentro

mistério que me sussurra todos os outros






domingo, 16 de fevereiro de 2020

do eterno retorno das segundas-feiras







“Onde estou?”, pergunto à funcionária da escola,
esperando um número de sala e a chave,
mas desejando intimamente
que de repente ela esclareça todos os mistérios,
o porquê de uma vida humana sob as estrelas,
a razão dos séculos findos e por vir.

“É na dezanove, professor”.
E a vida continua, numa manhã de segunda-feira.






domingo, 29 de dezembro de 2019

memórias de La Paz







Na minha mão sobre a mesa
pões a tua. São ainda jovens,
estas mãos que amam.

Esqueçamos que um dia 
desaparecerão e, por ora,
entrelacemos os dedos.

Quando menos é esperada,
a eternidade visita-nos
à volta de um café acabado de servir.





sábado, 9 de novembro de 2019

fortuito







Enquanto almoço na esplanada,
ao longe um rapaz acena e aproxima-se,
antes de constrangido voltar para trás,
ciente do seu lapso – não o conheço.

Quem será esse outro
com quem fui confundido?
Quem és, desconhecido semelhante,
recordando-me tudo o que não sou?

Entre o hambúrguer e o café,
perdi a singularidade.








sexta-feira, 20 de setembro de 2019

david, da vida, duvida, dúvida







Tiro a senha, espero
pelo registo criminal;
vem limpo, como sempre.

E esta angústia, as mágoas
que criei, o que quis ser
e não sou, em que parte de mim
registo estes pequenos crimes?




*




Quando entro no quarto devagar
e enquanto dormes tiro a roupa
e fico nu, em pé, quieto,
e tudo está escuro
e quase nenhum barulho vem lá de fora,
quem é este homem que em vão tenta
observar-te,
quem sou eu quando assim
me ignoro?





quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Múltiplos eventos diários de índole diversa








Acaba a final da Taça,
buzinas invadem as ruas.

A minha alegria é vã:
nada há de melhor nos verdes
que nos azuis, exceto
eu ser dos verdes.

Festejo, finto a insignificância
e remato a angústia que,
como bom guarda-redes,
agarro sempre de volta.



*



Da beleza, não conheço a essência,
mas a circunstância: deitada, de manhã,
olhas-me nos olhos e adormeces.



*


O casal de idosos
lê um jornal após outro
na mesa de uma esplanada.

Calados, partilham somente 
quietude e notícias.

A sua presença acusa:
a minha correria afugenta
esse encontro em que o tempo
é só um virar de página.





terça-feira, 9 de abril de 2019

abril, águas mil







Se digo “provém do céu,
faz uma airosa e curta viagem
antes de se desfazer para sempre no chão”,
falo das gotas de chuva
ou da vida de mulheres e homens?






domingo, 24 de março de 2019

declaração do primeiro trimestre












“Chegou o meu amor”,
dizes carinhosa quando abro a porta de casa,
cansado com uma carga invisível:
frustrações, insuficiências,
entranhada pequenez
que me controla e afoga.

“Chegou o meu amor”, dizes;
e, por momentos, caio nessa ilusão
de que o que acaba de chegar,
                invadir cada recanto da casa,
                               recobrir as superfícies das coisas,
                                               infiltrar-se nas brechas do soalho,
é, tão somente, o teu amor.



*



No centro do escritório, colocada
logo após a mudança de casa,
uma mesa de campismo:
eis onde escrevo.

Solução inicialmente temporária,
tornou-se permanente e,
agora, afloro o porquê:

                dar corpo às palavras
                é estar sempre pronto para partir.




*




O meu nome completo
tem só duas palavras;

mas no estranho apelido –
que vem do longínquo avô russo,
passa pelo pai argentino
e chega até mim em Lisboa –
há mochilas às costas,
lágrimas em partidas,
muitas milhas percorridas
na procura de um lugar para Ser.


*


Estive sem óculos dois dias,
esquecidos em casa de um amigo.
Tudo ficou mais turvo: linhas frágeis,
cores insípidas e, no fundo do olhar,
um permanente cansaço.

O amigo devolveu-me os óculos.
Linhas, cores, cansaço
continuaram iguais –
não há lentes que valham
quando é da alma a miopia.



*


As ovelhas caminham lentamente,
param, enfiam o rosto na terra,
comem  e voltam a caminhar.

Fazem-no em conjunto,
mas cada uma à sua maneira,
irrepetível.

Assim, na curta planície vedada
que observo desde a piscina do hotel rural,
se joga a perpétua tensão
entre a Singularidade e o Mundo.



*



Na mesa de cabeceira,
um livro sobre o cosmos,
outro sobre a psique.

Lado a lado,
quase parecem discutir
o que é mais fascinante:
se a infinitude externa do Universo,
se a infinitude interna da Alma.




segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

poemas de Buenos Aires







As palavras-bússola
entretecem perenes
o enigma de existir.

Quando as oiço
toda a alma é umbral.






*





Eis uma fé agnóstica:
quando me abraças
rezo ao Deus em que não creio
e peço inaudível
que a vida caiba toda no teu peito.






*





Entro na carruagem do metro
e, do outro lado do vidro,
momentâneos no seu afastamento,
o músico de rua e o vendedor ambulante
sentam-se agora no mesmo banco
da estação vazia.

Descansam,
não mais tocando
nem anunciando.

Partilhada em silêncio
parece divina a solidão.




*




Caminho viajo
procuro pergunto
oiço comparo.


É inevitável a sentença
de eco milenar:
sou estrangeiro
o rosto do Outro é minha pátria.




*




Em Buenos Aires o café é servido
com uma bolachinha e um copo de água.

Perante o insanável fervor
há que adoçar e diluir.




*




Judeu sem Deus,
faço da viagem
a minha permanência.

Resisto à intempérie – 
recolho a pouco e pouco
a voz ténue dos vários que sou.





quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Querido Marco Aurélio,







falas de um génio interior
que eterno nos sobrevive;
quem me dera conversar contigo
no intervalo das tuas batalhas.

Enquanto escrevo
neste restaurante de bairro
um americano extra large faz
um discurso apologético
sobre um hipotético
mushroom burguer:

teremos sempre,
estimado imperador,
conquistas e utopia
utopia e conquistas.










perspetivas da cidade







Passeio pela cidade
uma tarde por aqui
outra por acolá
vagueando.

Nas duas passo porém
pela mesma capela mortuária.
Diferentes protagonistas,
espetáculo igual:

cá fora
uns choram e outros conversam

lá dentro
os inexistentes relembram
que só os sonhos são imortais.



*



No prédio em frente ao meu
agita-se a trepadeira.

Com frágeis raízes
resiste à ferocidade do vento.

Lados da rua,
jogo de espelhos –
a natureza ascende
observada
por uma alma que sucumbe.






funcionalidade vs. caos







Organizo a escrita:
crio ficheiros
altero versos
consulto cadernos.

Planeio
ideias
textos
livros.

Uma voz subtil
evidencia
inexorável
o tumulto da mente.








inesperado Kant







Oiço na tasca:
“agora está no Kant,
mais perto do nada.”

A voz continua. Afinal foi:
“agora está no campo,
mais perto do nada.”

Clareza
     beleza: 
           inimigas.






welcome, idade adulta







Levávamos o sol no peito
explodindo em juventude
e na pele
meu amor
um murmúrio de flores e danças.

Lembras-te
desse tempo sem passado
em que todos os dias
eram amanhã?

As primeiras rugas
dois ou três cabelos brancos
e rotinas das nove às cinco
gritam agora um silêncio crescente;

denunciam cansaço,
a nossa nova habitação.







passeios com alguma dose de aleatoriedade






às vezes ao passar enfio
as mangas nas maçanetas
ou melhor
as maçanetas nas mangas

não é surrealismo
é distração

diria Freud talvez
que assim preso concretizo
o limbo que sou

terra de ninguém
ambiguidade sem remédio
inexpugnável outro



*



compro um regador de latão
recuso o saco
levo-o na mão

olham-me estranhamente
eis sem o saco
um homem transparente




*




agora há na cidade um sistema
de bicicletas partilhadas

usamos arrumamos respeitamos
e elas ali continuam disponíveis
viagem após viagem
aguardando nova vida

pena assim não ser
com as almas




*




homem sem utopias
cínico
homem de uma só utopia
totalitário

mais vale aguardar

lutar com pequena grandeza
e nos intervalos
quando a desistência ameaça
obter ânimo no sushi all you can eat

olhar o mundo com a alma
porque às vezes um verso
esconde-se vadio
entre os sacos do supermercado

perceber enfim
é divina a transitoriedade
e uma dádiva o poema
que em território inóspito sem hora marcada
enfrenta corajoso a angústia